Aos 35 anos, atleta de Jequié criada em Salvador encontrou na corrida uma forma de cuidar da saúde, manter a disciplina e superar os próprios limites
A rotina de quem vive na estrada exige disciplina, constância e foco. Para Lis Macedo, esses mesmos princípios também são fundamentais fora do caminhão. Aos 35 anos, mãe, caminhoneira há 16 anos e ultramaratonista, ela encontrou na corrida uma maneira de cuidar da saúde e, principalmente, de se desafiar.
Natural de Jequié, no interior da Bahia, Lis faz questão de destacar suas raízes, mas foi criada em Salvador, no bairro de Valéria, que chama carinhosamente de sua “terrinha”. A profissão também faz parte da história familiar: sua mãe é caminhoneira.
“Sou carreteira, corro há 9 anos e sou ultramaratonista”, conta Lis, que começou a trabalhar com caminhões ainda jovem. Ao longo da carreira, passou por diferentes veículos, incluindo betoneira e caminhões menores. Atualmente, trabalha com uma carreta de nove eixos.
Da estrada para a corrida
A corrida entrou na vida de Lis depois do nascimento do filho. Inicialmente, o objetivo era perder peso. Mas o que começou como uma atividade para emagrecer rapidamente se transformou em paixão.
“Você começa, começa, depois ela vai te pegando, você vai se apaixonando. Hoje é meu remédio, é a minha terapia, a corrida de rua”, afirma.
Conciliar os treinos com uma rotina profissional intensa não é simples. Lis trabalha em São Paulo e precisa adaptar os horários de treinamento à escala de trabalho. Mesmo assim, segundo ela, o treino não é deixado de lado.
Ela procura correr pela manhã, quando consegue, e organiza o restante do dia de acordo com os compromissos profissionais.
“Eu não deixo de treinar de jeito nenhum”, destaca.
50 quilômetros e uma segunda colocação
Entre as experiências que marcaram sua trajetória como ultramaratonista, uma ocupa lugar especial: a prova de Xinguó, na qual enfrentou 50 quilômetros.
Lis participou sem grandes expectativas, já que ainda não havia feito uma distância como aquela. O resultado, porém, surpreendeu: terminou a prova na segunda colocação.
Para ela, o momento mais difícil aconteceu durante o percurso, quando chegou a acreditar que não conseguiria continuar.
“Chegou um momento que eu achei que eu não ia aguentar”, relembra.
Foi então que buscou força na fé e utilizou uma comparação típica de quem vive na estrada: “Como a gente carreteiro fala, o motor vai esquentar e eu não vou aguentar.”
Mas o “motor” não parou. Lis completou os 50 quilômetros e subiu ao pódio.
Disciplina antes da motivação
Para Lis, o segredo para manter uma rotina de atividade física não está em acordar todos os dias motivada. Está na disciplina.
Ela compara o compromisso com a corrida ao compromisso profissional. Assim como precisa cumprir sua jornada de trabalho, também entende que precisa cumprir o compromisso que assumiu consigo mesma.
“Eu tenho disciplina, eu tenho foco, eu tenho um compromisso”, explica.
E esse compromisso, para ela, está diretamente relacionado à saúde. Afinal, manter o corpo e a mente bem é uma necessidade para conseguir desempenhar todos os outros papéis da vida.
“Pra eu estar bem na minha empresa, porque requer muito esforço, eu preciso estar bem com a minha saúde. Pra eu estar bem com minha esposa, eu preciso estar bem com minha saúde. Pra eu estar bem com meus filhos, eu preciso estar bem com minha saúde.”
Por isso, a atividade física virou prioridade em sua rotina.
“Nunca se deixe para trás”
A experiência nas estradas e nas corridas também trouxe uma filosofia que Lis carrega para a vida.
“Todo mundo está carregando sua cruz. Todo mundo tem seus perrengues. Mas nunca, nunca, nunca se deixe para trás.”
Para ela, haverá dias em que a vontade de treinar simplesmente não aparecerá. E é justamente nesses momentos que a disciplina precisa falar mais alto.
“Tem dia que você vai acordar sem querer ir, mas vá assim mesmo.”
A mensagem que Lis deixa é simples: não esperar o momento perfeito para começar ou continuar.
“Só vai, minha irmã. Nem pense muito, viu? E não fica inventando desculpa que não dá, que não pode. Sempre dá. O dia tem 24 horas. Então, você administra.”
Entre quilômetros de estrada e quilômetros percorridos a pé, Lis Macedo encontrou uma maneira de transformar disciplina em estilo de vida. Na boleia ou nas ultramaratonas, ela segue em frente, sem deixar a si mesma para trás.